Escotismo em Portugal

Uma História centenária!

Tal como havia acontecido em Inglaterra e em outros países, também em Portugal o aparecimento do escotismo despertou enorme entusiasmo entre os jovens, nomeadamente depois da campanha de divulgação que lhe dedicou o jornal O Século aberta pelo jornalista Paulo Osório, que em 9 de Agosto de 1912, publicava o notável trabalho Educação - a Origem dos Boy Scouts. Desde cedo os principais responsáveis do movimento sentiram necessidade de promoverem a sua organização, pois começavam-se a verificar as mais diversas interpretações do mé todo e acentuados desvios aos ideais que proclamava. Em 18 de Setembro 1912, em artigo publicado no jornal O Século, já Melo Machado (o iniciador do escotismo em Portugal) reconhecia a necessidade imperiosa de se constituir uma entidade para dirigir o movimento, o que só veio a acontecer um ano depois, com a criação da Associação dos Escoteiros de Portugal, em 6 de Setembro de 1913. O 1º Grupo da AEP foram na verdade 3: os Grupos 1, 2 e 3 de Lisboa. Não tardou porém que, a fundação em 10 de Março de 1914 da União dos Adueiros de Portugal que era uma adaptação desvirtuada do método de Baden-Powell, com acentuado cunho militarista, mas que teve alguma implantação no Norte, viesse a criar de novo a confusão nos meios escotistas.

Reconhecida oficialmente a União, pelo Governo da República em 1919, seguido da criação em 1923, do Corpo de Scouts Católicos Portugueses (que daria lugar em Fevereiro de 1925 ao Corpo Nacional de Scouts após ter visto retirada a aprovação dada pelo Governo, em resultado de contestações surgidas), logo alguns dirigentes responsáveis se empenharam na tarefa de interessar as associações existentes na criação de um organismo federativo, que conseguisse a unidade nacional do escotismo, o que só veio a acontecer em Março de 1928. Realizaram-se durante esse mês, diversas reuniões entre a AEP e o CNS, onde foi estabelecido um pacto sobre a criação da Federação Escotista de Portugal, que foi subscrito por todos os delegados em nome das duas associações, contando receber posteriormente a adesão da União dos Adueiros.

Este pacto foi rodeado de grandes manifestações de satisfação e amizade, mas parece nunca ter passado de uma jornada de boas intenções. Novas conversações em 1932, agora sobre a égide do Governo, levam à criação da Organização Escotista de Portugal, legalizada pelo Decreto nº; 21434 de 29 de Junho de 1932, que a integrava no Ministério da Instrução Pública. No ano seguinte, nasce em Portugal o escotismo feminino com a Associação Escotista Feminina, tendo sido Maria Luísa Magalhães Esteves Pereira uma das principais impulsionadoras. Já anteriormente tinham aparecido no colégio inglês de Carcavelos as Girl Guides, que se guiavam pelos estatutos ingleses, assim como uma Companhia que se fundara no Funchal. Reconhecendo que só com a direcção formada por senhoras portuguesas e com estatutos aprovados oficialmente, o escotismo feminino se poderia espalhar por todo o país, procuraram as dirigentes, das unidades femininas existentes, adesão de algumas senhoras de elevada categoria social e foi então criada a Associação das Guias de Portugal, cujos estatutos foram aprovados em 11 de Abril de 1934 pelo Ministro da Instrução Pública.

Em 1936, o movimento escotista em Portugal torna-se alvo de perseguições que o governo entende mover às associações de escotismo e aos seus dirigentes, sendo resultado do primeiro acto nesse sentido a extinção da Organização Escotista de Portugal. Outro rude golpe inflingido ao escotismo em Portugal foi aquele sofrido pela Associação das Guias de Portugal (que vinha a espalhar-se com grande entusiasmo por todo o país) e que ditou o fim de todas as companhias de Guias, à excepção apenas das de Luanda, que continuam a funcionar durante mais dois anos (até que um decreto do Ministro da Colónias suspende todo o Movimento Escotista no Ultramar Português), e da Companhia do Funchal que ainda hoje existe.

A pressão do Governo português de então, mergulhado em escuros propósitos de supressão do escotismo em Portugal, não veio a concretizar-se, porém, visto que a AEP e o CNE continuaram em funcionamento, embora sujeitos a condicionalismos vários e na dependência do Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, uma vez que os Estatutos das Associações Escotistas e Guidistas só teriam valor formal após pré via autorização deste. Em 1950 surge a Fraternal dos Antigos Escoteiros de Portugal e a 6 de Março de 1953 volta a observar-se as actividades da Associação das Guias de Portugal, através da 1ª Companhia de Guias de Portugal, designada Raínha D. Leonor anexa à Igreja Presbiterana, na Rua de S. Bento.

Ao longo dos anos as acentuadas dificuldades para as associações escotistas mantiveram-se, mas a Organização Mundial do Escotismo, embora aceitando a existência oficial do CNE (visto que a AEP tinha sido uma das associações fundadoras daquela organização), nunca deixou de insistir pela criação de um organismo federativo em Portugal, ao que as duas associações portuguesas não respondiam com muito entusiasmo, limitando-se a um acordo de representação alternada no cargo de Secretário das Relações Internacionais. Finalmente, após negociações difíceis, a AEP e o CNE cumpriram o nº;2 do artº; V da Constituição Mundial do Escotismo e fundaram em 1982 a Federação Escotista de Portugal ou Federação Escutista de Portugal, como alguns entendem dever chamar-se.

(*) Adaptação de um texto retirado do Manual do Curso Preliminar de Formação - Junho de 97 da Escola Nacional de Formação de Insígnia de Madeira